INSTALAÇÃO SONORA
Hoje me encontrei com o Glauber e ele me fez provocações relacionadas aos audios propóstos mesmo sem ler o texto.
Quando pensar em som, pensar no que eu quero que as pessoas ouçam.
Pensar em um som, que vai ser uma linha narrativa, ligando os dois as falas entre o homem e a mulher mesmo que eles estejam em locais diferentes. Inicialmente eu tinha pensado na música pavão mistorioso, mas acho que ela não fica interessante no fundo das falas. Até a segunda feira, quando nos encontraremos novamente vou levar pra ele outras opções de som, que não sejam música para testar, além da música pavão misterioso
Uma
mulher de mais ou menos 60 anos, será entrevistada em sua casa, sonoplastia de
barulho de cachorro na rua ao longe, pessoas conversando, escapamento de moto,
carro que vende alimentos de forma pontual em alguns momentos da fala da mulher.
Um
homem com mais de 60 anos dá uma entrevista em uma obra de um edifício. A
sonoplastia dele é de barulhos de obras, carros passando, gente conversando,
maquinas. A cena acontece na atualidade, com os dois personagens estão em
locais diferentes. A música “Pavão Misterioso” entra em algumas transições e ao
final da cena. Começar com barulho de obras, e uma narração de notícias em
rádio da época da construção de Brasília.
Transição
com sinal e música em melhor qualidade sonora. Começa a tocar o refrão de
“Pavão misterioso”. Encerra e então aparece o barulho de um gravador que começa
a gravar a entrevista
MULHER: Ele deve
ter grandes histórias para contar para vocês. (solo de guitarra) Já
falaram com ele? (solo de guitarra) Ele está fazendo o que agora? Eu
nunca mais tive contato... (solo de guitarra entra e continua baixinho
enquanto termina a frase) Ele tem um escritório!? Que legal. Ele está bem?
Eu pergunto isso porque essa coisa de construir muda a vida das pessoas. (solo
de guitarra até o som da percussão e continua com a música até o refrão)
HOMEM: (colocar narração que
Brasil ganha da França) Tava tendo jogo do Brasil.
De presente ganhei ali no meio do almoço um anjo em forma de arquiteta
vindo na minha direção, a bota fazia aquele barulho de cavalo (barulho de
cavalo com os dedos em madeira) eu perguntei pra um colega quem era ela e
fiquei olhando ela vindo na minha direção. Fiquei todo nervoso, eu nunca tinha
cantado uma mulher antes. Quando ela chegou perto, eu abri a boca e falei a
primeira besteira que veio na cabeça. Putz! Ela fez uma cara de brava e eu
achei que nunca mais ia encontrar com ela, parece coisa de doido isso, mas
naquela hora eu sabia que era amor.
MULHER: (barulho de cachorro
latindo) A primeira mulher da família a
me formar em uma faculdade. Arquitetura. Hoje eu não mexo com isso mais com
essas coisas de construção não, mas na época?! Recém formada, curiosa, e aventureira.
Peguei minhas malas e fui direto pro Planalto Central, ia ajudar a construir
Brasília. Eu queria meu nome escrito na história. A primeira mulher a trabalhar
como arquiteta na Capital. Ajudar a construir os 50 anos e 5. Eu era muito
ambiciosa. Quando eu cheguei lá, me deparei com o caos, o aeroporto todo era
de madeira, quando eu desci do avião aquela poeira subiu, não tinha quase nada
construído, não tinha água quente direito, e nem vendiam o cigarro que eu
costumava a fumar, minha boca ficava toda ressecada, o nariz sangrava direto e
aquele bando de homem pra todo lado que eu olhava. AQUELE LUGAR PARECIA INFERRRRRRNOOO! (suspira) Insuportável.
HOMEM: (barulho de troca de fita) A
gente ficou junto muito tempo, mas não deu certo. Pena. Eu sempre fui bom em
construir, mas esse amor eu nunca consegui finalizar. Acredita que mesmo depois
desse tempo todo separado nunca consegui tirar o número dela da lista dos meus
contatos de emergência? Acho que ela nunca vai saber disso. (barulho encerrando
a gravação)
Assim que eu mudei aqui pra
Ceilândia teve um homem plantou o abacateiro bem na divisa da minha casa com a dele,
acredita? O abacateiro cresceu. E à medida que ele foi crescendo os abacates
caíam no meu telhado e faziam um barulho muito forte, parece que os danados
faziam de propósito. Todo santo dia, na hora do almoço era batata! Aliás, abacate.
Quando eu me sentava pra comer
começava aquela barulheira, no início eu fiquei com raiva, mas depois eu até me
acostumei. Mulher sozinha né, não queria arrumar confusão com ninguém não, aí
não reclamei com ele. (sussurando)Eu até mastigava no mesmo ritmo que
caíam os abacates.
Até que um dia, eu me lembro como
se fosse hoje, era quarta-feira de cinzas, eu sentei como de costume pra comer,
mas não tinha percebido que tinha caído tanto abacate no mesmo lugar que tinha
mofado a telha e ela tava apodrecendo junto com os danados. Na terceira garfada
de frango com pequi, (pausa para barulho, nessa hora a atriz vai explodir
aquelas papeis de festa) caiu um abacate tão forte que furou minha telha e
veio direto no prato.
Eu fiquei paralisada com a
situação, sem acreditar no que tinha acabado de acontecer, cheia de abacate
podre, e resto de telha espalhado por tudo que é lado.
O meu silêncio me custou uma abacatada.
(Solo pavão misterioso fade out)
Comentários
Postar um comentário