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Dramatugia versão 8 com parte sonora

 

INSTALAÇÃO SONORA

Hoje me encontrei com o Glauber e ele me fez provocações relacionadas aos audios propóstos mesmo sem ler o texto.
Quando pensar em som, pensar no que eu quero que as pessoas ouçam.

Pensar em um som, que vai ser uma linha narrativa, ligando os dois as falas entre o homem e a mulher mesmo que eles estejam em locais diferentes. Inicialmente eu tinha pensado na música pavão mistorioso, mas acho que ela não fica interessante no fundo das falas. Até a segunda feira, quando nos encontraremos novamente vou levar pra ele outras opções de som, que não sejam música para testar, além da música pavão misterioso

Uma mulher de mais ou menos 60 anos, será entrevistada em sua casa, sonoplastia de barulho de cachorro na rua ao longe, pessoas conversando, escapamento de moto, carro que vende alimentos de forma pontual em alguns momentos da fala da mulher.

Um homem com mais de 60 anos dá uma entrevista em uma obra de um edifício. A sonoplastia dele é de barulhos de obras, carros passando, gente conversando, maquinas. A cena acontece na atualidade, com os dois personagens estão em locais diferentes. A música “Pavão Misterioso” entra em algumas transições e ao final da cena. Começar com barulho de obras, e uma narração de notícias em rádio da época da construção de Brasília.

Transição com sinal e música em melhor qualidade sonora. Começa a tocar o refrão de “Pavão misterioso”. Encerra e então aparece o barulho de um gravador que começa a gravar a entrevista

MULHER:  Ele deve ter grandes histórias para contar para vocês. (solo de guitarra) Já falaram com ele? (solo de guitarra) Ele está fazendo o que agora? Eu nunca mais tive contato... (solo de guitarra entra e continua baixinho enquanto termina a frase) Ele tem um escritório!? Que legal. Ele está bem? Eu pergunto isso porque essa coisa de construir muda a vida das pessoas. (solo de guitarra até o som da percussão e continua com a música até o refrão)

 HOMEM: (Barulho de obras, em seguida porta batendo. Silêncio, barulho de fita cassete no gravador)  Aqui no começo era aquela loucura. Uma terra vermelha que deixava a gente todo sujo e uma ventania de derrubá até saci. Eu morava num barraquinho de madeirite na vila Bananal, hoje vocês chamam de Lago Paranoá. Na época era minha casa. Tudo muito simples, mas eu tava no lucro. Vim do interior de Minas, deixei de tanger gado pra buscar o sonho de vida nova na Capital Federal. Assim que cheguei me apresentei na TerraCap, eles perguntaram se eu sabia ler, eu disse que sim e pronto, virei mestre de obras. 

 MULHER: (Barulho de copo encostando na mesa de vidro) Foi muito engraçado, eu tinha que passar pelo pátio onde almoçavam os peões, quer dizer, os candangos e aí eu vi de longe aquele cara baixinho com a calça e a bota toda suja de terra, o uniforme da Terracap e um palito nos dentes. Ele me viu de longe, sorriu e deu pra perceber que ele falou alguma gracinha pros colegas sobre mim. Eu fiquei intrigada... cruzei o pátio inteiro pra tentar esbarrar com ele, só pra ver se ele ia falar alguma coisa. Mas não é que ele disse: (voz do homem, com efeito para simbolizar que é uma fala antiga)"Aí broto, você que é a flor mais bonita desse cerrado?"... Acredita que eu achei bonito, até meio poético, sei lá. Me lembrou uma daquelas frases que eu lia nos livros quando eu era adolescente. Parece meio difícil de acreditar, mas naquele momento eu sabia que era amor. 

HOMEM: (colocar narração que Brasil ganha da França) Tava tendo jogo do Brasil.  De presente ganhei ali no meio do almoço um anjo em forma de arquiteta vindo na minha direção, a bota fazia aquele barulho de cavalo (barulho de cavalo com os dedos em madeira) eu perguntei pra um colega quem era ela e fiquei olhando ela vindo na minha direção. Fiquei todo nervoso, eu nunca tinha cantado uma mulher antes. Quando ela chegou perto, eu abri a boca e falei a primeira besteira que veio na cabeça. Putz! Ela fez uma cara de brava e eu achei que nunca mais ia encontrar com ela, parece coisa de doido isso, mas naquela hora eu sabia que era amor.

MULHER: (barulho de cachorro latindo) A primeira mulher da família a me formar em uma faculdade. Arquitetura. Hoje eu não mexo com isso mais com essas coisas de construção não, mas na época?! Recém formada, curiosa, e aventureira. Peguei minhas malas e fui direto pro Planalto Central, ia ajudar a construir Brasília. Eu queria meu nome escrito na história. A primeira mulher a trabalhar como arquiteta na Capital. Ajudar a construir os 50 anos e 5. Eu era muito ambiciosa. Quando eu cheguei lá, me deparei com o caos, o aeroporto todo era de madeira, quando eu desci do avião aquela poeira subiu, não tinha quase nada construído, não tinha água quente direito, e nem vendiam o cigarro que eu costumava a fumar, minha boca ficava toda ressecada, o nariz sangrava direto e aquele bando de homem pra todo lado que eu olhava. AQUELE LUGAR PARECIA  INFERRRRRRNOOO! (suspira) Insuportável.

HOMEM: (barulho de troca de fita)  A gente ficou junto muito tempo, mas não deu certo. Pena. Eu sempre fui bom em construir, mas esse amor eu nunca consegui finalizar. Acredita que mesmo depois desse tempo todo separado nunca consegui tirar o número dela da lista dos meus contatos de emergência? Acho que ela nunca vai saber disso. (barulho encerrando a gravação)

 MULHER: (Telefone toca) Meu telefone tá tocando, só um minuto. Deve ser uma emergência.

 Entra uma mulher correndo tenta atender o telefone, mas na hora que vai atender cai a ligação. Ela começa a fase zoom da MicroAtuação

 (Edição com estilo de como quem está pensando)

Assim que eu mudei aqui pra Ceilândia teve um homem plantou o abacateiro bem na divisa da minha casa com a dele, acredita? O abacateiro cresceu. E à medida que ele foi crescendo os abacates caíam no meu telhado e faziam um barulho muito forte, parece que os danados faziam de propósito. Todo santo dia, na hora do almoço era batata! Aliás, abacate.


Quando eu me sentava pra comer começava aquela barulheira, no início eu fiquei com raiva, mas depois eu até me acostumei. Mulher sozinha né, não queria arrumar confusão com ninguém não, aí não reclamei com ele. (sussurando)Eu até mastigava no mesmo ritmo que caíam os abacates.


Até que um dia, eu me lembro como se fosse hoje, era quarta-feira de cinzas, eu sentei como de costume pra comer, mas não tinha percebido que tinha caído tanto abacate no mesmo lugar que tinha mofado a telha e ela tava apodrecendo junto com os danados. Na terceira garfada de frango com pequi, (pausa para barulho, nessa hora a atriz vai explodir aquelas papeis de festa) caiu um abacate tão forte que furou minha telha e veio direto no prato.


Eu fiquei paralisada com a situação, sem acreditar no que tinha acabado de acontecer, cheia de abacate podre, e resto de telha espalhado por tudo que é lado.

O meu silêncio me custou uma abacatada.

 (Solo pavão misterioso fade out)

 

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