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Parte 7 Instalação Artística

 

INSTALAÇÃO ACÚSTICA

Uma mulher de mais ou menos 60 anos, será entrevistada em sua casa, sonoplastia de barulho de cachorro na rua ao longe, pessoas conversando, escapamento de moto, carro que vende alimentos de forma pontual em alguns momentos da fala da mulher.

Um homem com mais de 60 anos dá uma entrevista em uma obra de um edifício. A sonoplastia dele é de barulhos de olhas, carros passando, gente conversando, maquinas. A cena acontece na atualidade, com os dois personagens estão em locais diferentes. A música “Pavão Misterioso” entra em algumas transições e ao final da cena. Começar com barulho de obras, e uma narração de notícias em rádio da época da construção de Brasília.

Transição com sinal e música em melhor qualidade sonora. Começa a tocar o refrão de “Pavão misterioso”. Encerra e então aparece o barulho de um gravador que começa a gravar a entrevista

Cenário: Pulico fica no meio do palco com a arquibancada virada para o lado de fora. Nas paredes, fotos diversas e antigas sobre a construção de Brasília. Principalmente, sobre a construção e casais. Buscar fotos também dos anos 90. As fotos ficarão penduradas na vertical em um fio de nylon, como se desse a impressão que estão flutuando. Colocar um refletor a pino em cada uma das fotos, amarelo ou laranja. Colocar folhas secas no chão.

4 manequins um em cada ponta das paredes. 2 femininos, com roupas da atualidade e outro da década de 80 e 2 masculinos da mesma forma. Uma iluminação que exponha apenas a silhueta deles. Ter um canto com café, cheiro de café. Outro com terra molhada e construção.

Um telefone fixo a meia luz, amarela em um dos cantos. As caixas de som sem estar no chão como se estivessem na altura dos ouvidos, de preferência quatro. Bacia com roupas molhadas e sujas de barro. Deixar as pessoas se ambientarem, verem as fotos, os objetos podem tomar café. Enquanto toca pavão mysteriozo.

 

MULHER: Ele deve ter grandes histórias para contar para vocês. Já falaram com ele? Ele está fazendo o que agora? Eu nunca mais tive contato... Ele tem um escritório!? Que legal. Ele está bem? Eu pergunto isso porque essa coisa de construir muda a vida das pessoas.

 

HOMEM: Aqui no começo era aquela loucura. Uma terra vermelha que deixava a gente todo sujo e uma ventania de derrubá até saci. Eu morava num barraquinho de madeirite na vila Bananal, hoje vocês chamam de Lago Paranoá. Na época era minha casa. Tudo muito simples, mas eu tava no lucro. Vim do interior de Minas, deixei de tanger gado pra buscar o sonho de vida nova na Capital Federal. Assim que cheguei me apresentei na TerraCap, eles perguntaram se eu sabia ler, eu disse que sim e pronto, virei mestre de obras. 

 

MULHER: Foi muito engraçado, eu tinha que passar pelo pátio onde almoçavam os peões, quer dizer, os candangos e aí eu vi de longe aquele cara baixinho com a calça e a bota toda suja de terra, o uniforme da Terracap e um palito nos dentes. Ele me viu de longe, sorriu e deu pra perceber que ele falou alguma gracinha pros colegas sobre mim. Eu fiquei intrigada... cruzei o pátio inteiro pra tentar esbarrar com ele, só pra ver se ele ia falar alguma coisa. Mas não é que ele disse: (voz do homem)"Aí broto, vc que é a flor mais bonita desse cerrado?"... Acredita que eu achei bonito, até meio poético, sei lá. Me lembrou uma daquelas frases que eu lia nos livros quando eu era adolescente. Parece meio difícil de acreditar, mas naquele momento eu sabia que era amor. 

HOMEM: Eu lembro daquele dia porque tava tendo jogo do Brasil, (colocar narração que Brasil ganha da França).  De presu ganhei ali no meio do almoço um anjo em forma de arquiteta vindo na minha direção, a bota fazia aquele barulho de cavalo (barulho de cavalo com os dedos em madeira) eu perguntei pra um colega quem era ela e fiquei olhando ela vindo na minha direção. Fiquei todo nervoso, eu nunca tinha cantado uma mulher antes. Quando ela chegou perto, eu abri a boca e falei a primeira besteira que veio na cabeça. Ela fez uma cara de brava e eu achei nunca mais ia encontrar com ela, parece coisa de doido isso, mas naquela hora eu sabia que era amor.

MULHER: A primeira mulher da família a me formar em uma faculdade. Arquitetura. Hoje eu não mexo com isso mais com essas coisas de construção não, mas na época?! Recém formada, curiosa, e aventureira. Peguei minhas malas e fui direto pro Planalto Central, ia ajudar a construir Brasília. Eu queria meu nome escrito na história. A primeira mulher a trabalhar como arquiteta na Capital. Ajudar a construir os 50 anos e 5. Eu era muito ambiciosa. Quando eu cheguei lá, me deparei com o caos, o aeroporto todo era de madeira, quando eu desci do avião aquela poeira subiu, não tinha quase nada construído, não tinha água quente direito, e nem vendiam o cigarro que eu costumava a fumar, minha boca ficava toda ressecada, o nariz sangrava direto e aquele bando de homem pra todo lado que eu olhava. AQUELE LUGAR PARECIA  INFERRRRRRNOOO! (suspira) Insuportável.

HOMEM: (Som de Trânsito) A gente ficou junto muito tempo, mas não deu certo. Pena. Eu sempre fui bom em construir, mas esse amor eu nunca consegui finalizar. Acredita que mesmo depois desse tempo todo separado nunca consegui tirar o número dela da lista dos meus contatos de emergência? Acho que ela nunca vai saber disso.  (Acaba o som de trânsito bruscamente)

 

MULHER: (Telefone toca) É o meu celular tocando, só um minuto. Deve ser uma emergência.

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