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DRAMATURGIA PARTE 6

 Então, aqui eu pensei em usar uma referência de cenas do filme Olhos bem fechados. Onde as coisas parecem que vão se desenvolver, mas não desenvolvem. É como se as cenas, neste caso as falas, não desenvolvessem um final. E o conceito de eros do bataille sobre amor e morte. 



Começar com barulho de obras, e uma narração de notícias em rádio da época da construção de Brasília.

Transição com sinal e música em melhor qualidade sonora. Começa a tocar o refrão de “Pavão misterioso”. Encerra e então aparece o barulho de um gravador que começa a tocar

Na cena: Uma mulher de mais ou menos 60 anos, que será entrevistada em sua casa, sonoplastia de barulho de cachorro na rua ao longe, pessoas conversando, escapamento de moto, carro que vende alimentos de forma pontual em alguns momentos da fala da mulher. Um homem com mais de 60 anos que está dando uma entrevista por telefone enquanto dirige. A sonoplastia dele é de trânsito, barulho de buzina, carros, notícias ao longe e vendedores de água e bala em momentos estratégicos da cena. A cena acontece na atualidade, mas os dois personagens estão em locais diferentes. Experimentar a música “Pavão Misterioso” entre algumas transições e ao final da cena

MULHER: Ele deve ter grandes histórias para contar para vocês. Já falaram com ele? Ele está fazendo o que agora? Eu nunca mais tive contato... Ele tem um escritório!? Que legal. Ele está bem? Eu pergunto isso porque essa coisa de construir muda a vida das pessoas.

 

HOMEM: Aqui no começo era aquela loucura. Uma terra vermelha que deixava a gente todo sujo e uma ventania que derrubava até saci. Eu morava num barraquinho de madeirite na vila Bananal, hoje vocês chamam de Lago Paranoá, mas na época era minha casa. Tudo muito simples, mas eu tava no lucro. Vim do interior de Minas, deixei de tanger gado pra buscar o sonho de vida nova na Capital Federal. Assim que cheguei me apresentei na TerraCap, eles perguntaram se eu sabia ler, eu disse que sim e pronto, virei mestre de obras. 

MULHER: A primeira da minha família a me formar em uma faculdade. Arquitetura. Hoje eu não mexo com isso mais com essas coisas de construção não, mas na época?! Recém formada, curiosa, e aventureira hahaha. Peguei minhas malas e fui direto pro Planalto Central, ia ajudar a construir Brasília. Eu queria meu nome escrito na história. A primeira mulher a trabalhar como arquiteta na Capital. Ajudar a construir os 50 anos e 5. Eu era muito ambiciosa. Quando eu cheguei lá, me deparei com o caos, o aeroporto todo era de madeira, quando eu desci do avião aquela poeira subiu, não tinha quase nada construído, não tinha água quente direito, e nem vendiam o cigarro que eu costumava a fumar, minha boca ficava toda ressecada da seca, o nariz sangrava e aquele bando de homem pra todo lado que eu olhava. AQUELE LUGAR PARECIA  INFERRRRRRNOOO! (suspira) Insuportável.

HOMEM: Eu lembro daquele dia porque tava tendo jogo do Brasil, e a gente ganhou de 5x2 da França.  De presente eu ganhei ali no meio do almoço um anjo em forma de arquiteta vindo na minha direção, a bota fazia aquele barulho de cavalo (barulho de cavalo com os dedos em madeira) eu perguntei pra um colega quem era ela e fiquei olhando ela vindo na minha direção. Fiquei todo nervoso, eu nunca tinha cantado uma mulher antes. Quando ela chegou perto, eu abri a boca e falei a primeira besteira que veio na cabeça. Ela fez uma cara de brava e eu achei nunca mais ia encontrar com ela, parece coisa de doido isso, mas naquela hora eu sabia que era amor.

MULHER: Foi muito engraçado, eu tinha que passar pelo pátio onde almoçavam os peões, quer dizer, os candangos e aí eu vi de longe aquele cara baixinho com a calça e a bota toda suja de terra, o uniforme da Terracap e um palito nos dentes. Ele me viu de longe, sorriu e deu pra perceber que ele falou alguma gracinha pros colegas sobre mim. Eu fiquei intrigada... cruzei o pátio inteiro pra tentar esbarrar com ele, só pra ver se ele ia falar alguma coisa. Mas não é que ele disse: (voz do homem)"Aí broto, vc que é a flor mais bonita desse cerrado?"... Acredita que eu achei bonito, até meio poético, sei lá. Me lembrou uma daquelas frases que eu lia nos livros quando eu era adolescente. Parece meio difícil de acreditar, mas naquele momento eu sabia que era amor. 

HOMEM: (Som de Trânsito) A gente ficou junto muito tempo, mas não deu certo. Pena. Eu sempre fui bom em construir, mas esse amor eu nunca consegui finalizar. Acredita que mesmo depois desse tempo todo separado nunca consegui tirar o número dela da lista dos meus contatos de emergência? Acho que ela nunca vai saber disso.  (Acaba o som de trânsito bruscamente)

 

MULHER: (Telefone toca) É o meu celular tocando, só um minuto. Deve ser uma emergência.

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