Então, aqui eu pensei em usar uma referência de cenas do filme Olhos bem fechados. Onde as coisas parecem que vão se desenvolver, mas não desenvolvem. É como se as cenas, neste caso as falas, não desenvolvessem um final. E o conceito de eros do bataille sobre amor e morte.
Começar
com barulho de obras, e uma narração de notícias em rádio da época da construção
de Brasília.
Transição
com sinal e música em melhor qualidade sonora. Começa a tocar o refrão de “Pavão
misterioso”. Encerra e então aparece o barulho de um gravador que começa a tocar
Na
cena: Uma mulher de mais ou menos 60 anos, que será entrevistada em sua casa, sonoplastia
de barulho de cachorro na rua ao longe, pessoas conversando, escapamento de moto,
carro que vende alimentos de forma pontual em alguns momentos da fala da mulher.
Um homem com mais de 60 anos que está dando uma entrevista por telefone enquanto
dirige. A sonoplastia dele é de trânsito, barulho de buzina, carros, notícias
ao longe e vendedores de água e bala em momentos estratégicos da cena. A cena
acontece na atualidade, mas os dois personagens estão em locais diferentes.
Experimentar a música “Pavão Misterioso” entre algumas transições e ao final da
cena
MULHER: Ele deve
ter grandes histórias para contar para vocês. Já falaram com ele? Ele está
fazendo o que agora? Eu nunca mais tive contato... Ele tem um escritório!? Que
legal. Ele está bem? Eu pergunto isso porque essa coisa de construir muda a
vida das pessoas.
HOMEM: Aqui no começo era aquela
loucura. Uma terra vermelha que deixava a gente todo sujo e uma ventania que
derrubava até saci. Eu morava num barraquinho de madeirite na vila Bananal, hoje
vocês chamam de Lago Paranoá, mas na época era minha casa. Tudo muito simples,
mas eu tava no lucro. Vim do interior de Minas, deixei de tanger gado pra
buscar o sonho de vida nova na Capital Federal. Assim que cheguei me apresentei
na TerraCap, eles perguntaram se eu sabia ler, eu disse que sim e pronto, virei
mestre de obras.
MULHER: A
primeira da minha família a me formar em uma faculdade. Arquitetura. Hoje eu
não mexo com isso mais com essas coisas de construção não, mas na época?! Recém
formada, curiosa, e aventureira hahaha. Peguei minhas malas e fui direto pro
Planalto Central, ia ajudar a construir Brasília. Eu queria meu nome escrito na
história. A primeira mulher a trabalhar como arquiteta na Capital. Ajudar a
construir os 50 anos e 5. Eu era muito ambiciosa. Quando eu cheguei lá, me
deparei com o caos, o aeroporto todo era de madeira, quando eu desci do
avião aquela poeira subiu, não tinha quase nada construído, não tinha água
quente direito, e nem vendiam o cigarro que eu costumava a fumar, minha boca
ficava toda ressecada da seca, o nariz sangrava e aquele bando de homem pra todo
lado que eu olhava. AQUELE LUGAR PARECIA INFERRRRRRNOOO! (suspira) Insuportável.
HOMEM: Eu
lembro daquele dia porque tava tendo jogo do Brasil, e a gente ganhou de 5x2 da
França. De presente eu ganhei ali no meio do almoço um anjo em forma de
arquiteta vindo na minha direção, a bota fazia aquele barulho de cavalo (barulho
de cavalo com os dedos em madeira) eu perguntei pra um colega quem era ela
e fiquei olhando ela vindo na minha direção. Fiquei todo nervoso, eu nunca
tinha cantado uma mulher antes. Quando ela chegou perto, eu abri a boca e falei
a primeira besteira que veio na cabeça. Ela fez uma cara de brava e eu achei
nunca mais ia encontrar com ela, parece coisa de doido isso, mas naquela hora
eu sabia que era amor.
MULHER: Foi
muito engraçado, eu tinha que passar pelo pátio onde almoçavam os peões, quer
dizer, os candangos e aí eu vi de longe aquele cara baixinho com a calça e a
bota toda suja de terra, o uniforme da Terracap e um palito nos dentes. Ele me
viu de longe, sorriu e deu pra perceber que ele falou alguma gracinha pros
colegas sobre mim. Eu fiquei intrigada... cruzei o pátio inteiro pra tentar
esbarrar com ele, só pra ver se ele ia falar alguma coisa. Mas não é que ele
disse: (voz do homem)"Aí broto, vc que é a flor mais bonita desse
cerrado?"... Acredita que eu achei bonito, até meio poético,
sei lá. Me lembrou uma daquelas frases que eu lia nos livros quando eu era
adolescente. Parece meio difícil de acreditar, mas naquele momento eu sabia que
era amor.
HOMEM: (Som de Trânsito) A
gente ficou junto muito tempo, mas não deu certo. Pena. Eu sempre fui bom em
construir, mas esse amor eu nunca consegui finalizar. Acredita que mesmo depois
desse tempo todo separado nunca consegui tirar o número dela da lista dos meus
contatos de emergência? Acho que ela nunca vai saber disso. (Acaba
o som de trânsito bruscamente)
MULHER: (Telefone toca) É
o meu celular tocando, só um minuto. Deve ser uma emergência.
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