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Dramaturgia finalizada + início de espacialização

A forma da dramaturgia é baseada no filme de olhos bem fechados dirigido por Stanley Kubrick, onde ao meu ver, as cenas não se encerram e como espectadores ficamos com a sensação de que os acotnecimentos não se desenvolvem e que o personagem principal, encenado pelo Tom Cruise também "não faz nada".

Construí a narrativa tentand direcionar o ouvinte para isso. As coisas podem acontecer, mas não acontecem... Ficando com a sensação de que não saber o início nem o fim dos acontecimentos.

Além disso, também acabou indo para o lado oposto de Eros do Bataille, onde os personagens não se entregam ao desejo e se "acovardam", apesar de em suas histórias profissionais serem cojarosos e pioneiros. 



A cena acontece na atualidade, os dois personagens contam as histórias em locais diferentes.

Cenário 1: Uma mulher de mais ou menos 60 anos irá gravar uma entrevista em áudio em sua casa. Uma jornalista estará com ela.

Sonoplastia (espacialização): barulho de cachorro na rua ao longe, pessoas passando conversando, escapamento de moto, carro que vende alimentos, passarinhos de forma pontual em alguns momentos da fala da mulher.

Cenário 2: Um homem de mais ou menos 65 anos está gravando perto de uma obra onde ele trabalha

A sonoplastia (espacialização): barulho de trânsito, buzinas, pessoas falando, barulhos de obra, risadas.

Experimentar a música “Pavão Misterioso” entre algumas transições e ao final da cena

Cena 1: Começar com barulho de obras, e uma narração de notícias em rádio da época da construção de Brasília, com notícias que tenham a palavra construção e falem sobre migração.

Cena 2:Transição com sinal imitando um beep e música em melhor qualidade sonora para ambientar o ouvinte de que a cena se passa na atualidade. Começa a tocar o refrão de “Pavão misterioso”.

Cena 3: E segue com a sonoplastia já indicada para a mulher. Intercalar o início da música instrumental Pavão Misterozo com as falas.

MULHER: Ele deve ter grandes histórias para contar para vocês. Já falaram com ele? Ele está fazendo o que agora? Eu... eu nunca mais tive contato. Ele tem um escritório!? Que legal. Ele está bem? Eu pergunto isso porque essa coisa de construir muda a vida das pessoas.

 Transição: parte da música após terminar o solo de violão até o fim do primeiro refrão.

Fade in.

 Cena 4: Barulho de alguém apertando um botão de um gravador antigo, para começar a entrevista. Sonoplastia indicada durante a fala do homem.       

 HOMEM: Aqui no começo era aquela loucura. Uma terra vermelha que deixava a gente todo sujo e uma ventania de derrubá até saci. Eu morava num barraquinho de madeirite na Vila Bananal, hoje vocês chamam de Lago Paranoá, mas na época era minha casa. Tudo muito simples, mas eu tava no lucro. Vim do interior de Minas, deixei de tanger gado pra buscar o sonho de vida nova na Capital Federal. Assim que cheguei me apresentei na TerraCap, eles perguntaram se eu sabia ler, eu disse que sim e pronto, virei mestre de obras. 

MULHER: A primeira mulher da família a me formar em uma faculdade. Arquitetura. Hoje eu não mexo com isso mais com essas coisas de construção não, mas na época?! Recém formada, curiosa, e aventureira. Peguei minhas malas e fui direto pro Planalto Central, ia ajudar a construir Brasília. Eu queria meu nome escrito na história. A primeira mulher a trabalhar como arquiteta na Capital. Ajudar a construir os 50 anos e 5. Eu era muito ambiciosa. Quando eu cheguei lá, me deparei com o caos, o aeroporto todo era de madeira, quando eu desci do avião aquela poeira subiu, não tinha quase nada construído, não tinha água quente direito, e nem vendiam o cigarro que eu costumava a fumar, minha boca ficava toda ressecada, o nariz sangrava direto e aquele bando de homem pra todo lado que eu olhava. AQUELE LUGAR PARECIA  INFERRRRRRNOOO! (suspira) Insuportável.

HOMEM: Eu lembro daquele dia porque tava tendo jogo do Brasil, e a gente ganhou de 5x2 da França.  De presente eu ganhei ali no meio do almoço um anjo em forma de arquiteta vindo na minha direção, a bota fazia aquele barulho de cavalo (barulho de cavalo com os dedos em madeira) eu perguntei pra um colega quem era ela e fiquei olhando ela vindo na minha direção. Fiquei todo nervoso, eu nunca tinha cantado uma mulher antes. Quando ela chegou perto, eu abri a boca e falei a primeira besteira que veio na cabeça. Ela fez uma cara de brava e eu achei nunca mais ia encontrar com ela, parece coisa de doido isso, mas naquela hora eu sabia que era amor.

MULHER: Foi muito engraçado, eu tinha que passar pelo pátio onde almoçavam os peões, quer dizer, os candangos e aí eu vi de longe aquele cara baixinho com a calça e a bota toda suja de terra, o uniforme da Terracap e um palito nos dentes. Ele me viu de longe, sorriu e deu pra perceber que ele falou alguma gracinha pros colegas sobre mim. Eu fiquei intrigada... cruzei o pátio inteiro pra tentar esbarrar com ele, só pra ver se ele ia falar alguma coisa. Mas não é que ele disse: (voz do homem)"Aí broto, vc que é a flor mais bonita desse cerrado?"... Acredita que eu achei bonito, até meio poético, sei lá. Me lembrou uma daquelas frases que eu lia nos livros quando eu era adolescente. Parece meio difícil de acreditar, mas naquele momento eu sabia que era amor. 

HOMEM: A gente ficou junto muito tempo, mas não deu certo. Pena. Eu sempre fui bom em construir, mas esse amor eu nunca consegui finalizar. Acredita que mesmo depois desse tempo todo separado nunca consegui tirar o número dela da lista dos meus contatos de emergência? Acho que ela nunca vai saber disso.  

 MULHER: (Telefone toca) É o meu celular tocando, só um minuto. Deve ser uma emergência. 


https://soundcloud.com/jemima-bracho/primeiro-teste

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